“mulher reclinada – paisagem”

paisagem#7, óleo s/tela, 20x30cm, 2008, anderson

A tela é pequena; tomá-la por uma miniatura não seria descabido . Comparo-a a um Vermeer, se o velho holandês houvesse ousado pintar nus assim . Compará-la a um Vermeer pode surpreender a princípio. Seria mais previsível uma comparação com Lucien Freud, de cuja imagerie Anderson se nutriu em seus exórdios e na qual ainda deve, sem dúvida, encontrar fecundidade. Lucien Freud é mais brutal do que o holandês, e a delicadeza este último talvez pareça inteiramente estranha ao universo de Anderson. Mas não é.

a comparação com Vermeer não se restringe às dimensões dessa obra ou à óbvia riqueza da paleta de Anderson, trabalhada com delicadezas surpreendentes. Essa pintura é também tributária da fotografia, serve-se dos mesmos expedientes fotográficos que outrora serviram ao mestre de Delft quando este empregava a camara oscura. Os enquadramentos, ângulos, a saturação da cor, o meticuloso tratamento dado aos volumes, as coagulações da luz: tudo é fotográfico. Mas essa transposição de imagens em pintura ultrapassa e refaz a imagem capturada por um aparelho em linguagem absolutamente pictórica. O fazer artístico que falta à fotografia s’ opera na manipulação da imagem e sua reconstrução como coisa pintada. O material é reelaborado em seus mínimos detalhes, duma curva a uma mancha, das texturas às graduações luminosas, e, no fim das contas, a fotografia é superada – suplantada – por uma alta factura pictórica. Anderson não é, pois, menos delicado em suas manipulações do que o teriam sido Ruysdel ou Fabritius.

que Anderson haja nomeado seus nus femininos “paisagens” apenas reforça a analogia com a pintura dos Países Baixos do século XVII à qual me refiro comparando-o a Vermeer . Essas “paisagens” poderiam chamar-se igualmente “naturezas-mortas”, pois paisagem e natureza-morta s’ equivalem naquelas escolas. Há na pintura de Anderson uma redução da mulher à matéria que constitui seu corpo e à repercussão de sua imagem na retina, uma objetificação da mulher que subtrai sua individualidade: aí reconhecemos eventualmente um rosto, mas não uma pessoa. Interessam as variações cromáticas da epiderme, as dobras da pele, a flacidez da carne, o brilho de elementos da anatomia que se separam cirurgicamente do resto do corpo, mas nada de sentimento ou psicologia . Assim como uma natureza-morta feita de objetos diversos arranjados sobre um móvel qualquer, as carnes e ossos são dispostos sobre colchões e pisos para resultar num arranjo sabiamente composto; do mesmo modo que numa paisagem, aí vistas s’ apresentam em planos superpostos.

a telinha em questão é uma composição preciosamente trabalhada . É possível abstrair a figura representada para aí não se ver mais do que um ângulo da perna contrapondo-se à horizontal do braço estendido à esquerda do observador. Feixes de dobras de tecido podem ser redirigidos ao ombro que, centro do quadro, provê um eixo perpendicular à superfície. A articulação de linhas e ângulos em torno desse eixo revela a máquina a que se reduz esse corpo feminino na mecânica do conjunto. O rosto não diz nada, mal o entrevemos. As carnes s’ esfriam, apesar de seus rosas e rubros luminosos, como s’ estivessem expostas num açougue. Pode-se assinalar aí uma vinculação do autor ao rigor construtivo dum Cézanne, que, disso bem sabemos lh’ impregnara a produção de forma indireta, através de suas releituras de Picasso nos anos 1990. A pesquisa formal de Anderson se desenvolve com foco em estruturas anatômicas, é certo, mas esquemas geométricos dos mais rigorosos subjazem aos amálgamas de tecidos orgânicos representados na superfície policrômica, abarcando também o fundo.

inútil procurar outros sentidos nessa obra além da crueza dessa realidade devassada: o corpo é coisa, é objeto, é matéria. Não há significações ocultas ou deixas para a verborragia de letrados ávidos por exibirem sua retórica. Há, pelo contrário, uma total recusa em pôr a imagem a serviço da palavra. A imagem é implacavelmente atirada contra a retina, um “cale a boca e engula”. O que mais deve fazer uma obra-de-arte?

Anderson é um artesão, um perito, repõe as habilidades especiais, de dificílima aquisição, no centro da arte: a visão treinada em primeiro lugar; em seguida, a mão que tudo registra.

também aqui o nexo com a fotografia é estreito: a mão é um instrumento de registro preciso tanto quanto a fotografia. Mas a mão intervém na construção e manipulação da imagem, fazendo-a. uma nota elitista s’ introduz por trás desse fazer, onde a autoria s’ imprime despoticamente . O autor é um autocrata, cuja vontade arbitra na constituição do visível. O retorno ao objeto artístico, de fatura laboriosa e irreprodutível, assume um caráter de resistência nesse artista.

[etc.]

[uma reprodução fotográfica dessa obra não oferece senão uma idéia muito grosseira das qualidades cromáticas dessa pintura, que é uma obra-prima . melhor vê-la no atelier, quando uma simples variação na luz que sobre ela incida revela, aos que disponham de fina percepção, nuanças sutilíssimas . melhor vale, pois, uma visita ao atelier do pintor.]

caius marcellus araújo

texto publicado originalmente no www.clausclars.blogspot.com

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